quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Terceira Idade



        
  Há dias passados recebemos eu e minha mulher, em nosso apartamento, a visita de Pablo Tumang, um companheiro de lutas pretéritas levadas a efeito no Espírito Santo sob o signo do voluntariado: tínhamos de tirar dinheiro do bolso para cobrir despesas resultantes das causas em que nos empenhávamos. Fazer hoje esta declaração é importante porque vivemos num tempo dominado pelo interesse pessoal. Ganhar dinheiro a qualquer custo é a ordem do dia. Ser pobre é humilhação. Homem feliz é o homem rico. São Francisco de Assis foi um infeliz, um derrotado.
          Pablo Tumang ostenta 86 anos de idade. Usei de propósito o verbo ostentar porque é isso mesmo: Pablo exibe um corpo de idoso habitado por uma alma de menino.
          Lembrando os velhos tempos do voluntariado que praticamos lado a lado, especialmente em atividades da Arquidiocese de Vitória, Pablo veio com um novo desafio: a criação em nossa capital de uma obra destinada à valorização do idoso, nada parecido com asilo de velhos. Muito pelo contrário. Alguma coisa que facilite a inclusão dos idosos na luta pela transformação do mundo, um mundo do qual se extirpe o egoísmo e onde se faça do altruísmo, da abnegação e da crença na dignidade da vida a senha para entrar.
          A obra projetada será para idosos. Entretanto, sugeri a Pablo que jovens fossem convidados para a empreitada. Seriam a vanguarda; os idosos, a retaguarda. Completei. Fale com Homero Junger Mafra, presidente da OAB. Ele certamente não poderá aceitar o encargo, pois a presidência da Ordem dos Advogados já o absorve de todo. Entretanto indicará jovens idealistas e de coração aberto que se proponham a enfrentar o desafio, pois ele conhece meio mundo e é muito estimado.
Hoje se diz que a partir dos 60 anos mulheres e homens entram na Terceira Idade. Alceu de Amoroso Lima discordava dessa visão. No livro “As Idades do Homem”, esse pensador dividia em cinco fases a caminhada dos seres humanos: infância, adolescência, mocidade, maturidade e velhice.  Para Alceu a velhice começava aos 65 anos e não era uma idade de descida, decrepitude.  Muito pelo contrário. Era uma idade de ascensão.  Colheita de frutos.  Aperfeiçoamento da vida.  Sublimação. Vôo. E Alceu, na sua existência, experimentou a velhice que desenhou em “As Idades do Homem”. Coerente até o fim. Lúcido. Corajoso, intrépido mesmo, censurou a ditadura instaurada em 1964, num momento em que essa atitude, assumida por um intelectual de grande prestígio, poderia ocasionar a prisão.
  A viuvez, que poderia ter sido dolorosa e triste, ele soube sublimar.  Lia toda manhã uma das cartas de sua mulher.  Somente uma.  Nunca mais de uma.  Era a fruta saborosa daquele dia.
 
Por: João Baptista Herkenhoff
        é magistrado aposentado (ES), palestrante e escritor.